terça-feira, maio 29, 2007

Coração alvinegro

O menino no domingo já acordava sabendo como seria o seu dia. Café da manhã bem gostoso, embora não fosse farto, leitura do jornal em companhia com sua mãe, momento que ela gostava de aproveitar para perguntar ao filho como ia na escola. O garoto tinha acabado de entrar na classe de alfabetização e assim estava descobrindo um novo mundo, muito além das fotos do jornal.
Por volta do meio dia era a hora do almoço e neste momento o pai fazia questão de ter todos à mesa. Ele era o primeiro a ter o seu prato servido pela mãe. Finado o almoço, descansavam por volta de uma hora e depois saíam. O engraçado é que a comunicação se dava pelo olhar e o pai nem precisava dar ordens, pois tudo fazia parte de uma espécie de ritual: ir ao Maracanã ver o jogo do Botafogo.
O pai havia se tornado botafoguense por influência de seu próprio pai, o único português botafoguense de que se teve notícia. Assim, nada mais lógico que seu filho se tornasse mais um torcedor alvinegro, já que os botafoguenses só se reproduzem assim, geneticamente.
O menino esperara a semana toda por este momento e ele finalmente havia chegado. O Botafogo estava na final e o Maracanã estaria lotado, pois os dois finalistas tinham feito campanhas maravilhosas e as torcidas estavam empolgadas. Tudo corria perfeitamente.
Pai e filho saem de casa e caminham em direção ao estádio e tudo seguia como se estivesse planejado. O menino seguia o pai, passadas apressadas, pois o tamanho de suas pernas é diminuto ainda e o pai caminha com a segurança de um campeão.
A chegada ao Maracanã é emocionante! Aquela gritaria, aquele agito, aquela energia! O menino fica ainda mais empolgado, animado! Que dia, que dia!
O pai coloca o menino nas suas costas, na intenção de livrá-lo dos choques da entrada do estádio. Passada a roleta, começa a subida pela rampa onde policiais solicitam que os torcedores levantem suas camisas, apenas para se certificarem de que tudo correrá bem.
No fim da rampa, um chamego no busto de Garrincha seguido de um pedido, quase uma súplica: "Dá uma força daí mané!" Feito isso, entram logo e buscam o lugar de sempre. Pai e filho sempre sentaram no mesmo lugar, como se no cinza do concreto eles pudessem ler seus nomes. Juntos, aguardam a entrada dos times e o início do jogo.
O jogo é emocionante! Como diriam os locutores esportivos, é um jogo "lá e cá". Fim do primeiro tempo e o Botafogo está em vantagem, ganhando por 2 gols de diferença. Tudo caminhava bem, até o segundo tempo, quando começou a tragédia.
Logo no início o time adversário marca o primeiro gol. O segundo não demora a acontecer. Jogo empatado. No fim do jogo, falta na entrada da área. Pronto. Botafogo perde a final. 3x2.
O pai, que era a imagem da alegria no primeiro tempo, apóia os cotovelos nos joelhos e chora. Um choro silencioso... o menino também chora, meio que sem saber a razão de seu pranto, chora para acompanhar o pai.
A volta para casa é triste, restando apenas escutar os gritos de "É campeão" da torcida adversária. O domingo que começou maravilhoso termina de maneira melancólica.
A semana seguinte ao jogo foi decisiva na vida do casal. O menino presencia diversas brigas. Sua mãe apenas chora, quando seu pai bate a porta dizendo que nunca mais iria voltar. E nunca mais voltou.
Os anos passam e aquele menino cresce e se torna, ao seu tempo, pai também. Seu filho começa a crescer e passa a sofrer pressões para escolher logo um time. Este pai resolve levá-lo ao Maracanã.
Levar o filho ao Maracanã é como rever um filme há muito tempo guardado, pois este pai não pisava naquele estádio deste aquele fatídico jogo. No caminho para o estádio este pai repete, meio que sem querer, o mesmo ritual que vira seu pai fazer há muitos anos atrás. Acordam, leêm o jornal, almoçam, descansam e saem de casa. Chegam ao estádio, passam pela roleta, sobem a rampa, levantam a camisa e fazem um cafuné no Garrincha. Tudo igual.
Ao entrarem na arquibancada, o pai escolhe o mesmo lugar que costumava sentar, num misto de hábito e um desejo de voltar no tempo. O jogo começa.
O primeiro tempo foi igualzinho. Botafogo sai na frente. Este pai, achando que a história iria se repetir, quase que não vê o segundo tempo. Mas seu nervosismo vai embora logo no reinício da partida, quando o Botafogo faz mais um, assegurando a vitória e o título.
No fim do jogo mais um gol e o apito final. O glorioso se torna campeão.
Na confusão, entre gritos e pulos, este pai olha para o lado e seus olhos encontram uma imagem do passado ao cruzar o olhar com seu pai, sentado quase que no mesmo lugar onde eles estavam há anos atrás. O velho pai, ao olhar o filho, tem um choque. Senta novamente e leva a mão ao coração. O jovem pai permanece de pé, sem saber o que fazer. Após alguns segundos, que pareceram séculos, o velho pai levanta e sai do estádio, com a pressa de quem perdeu um título. O jovem pai, no entando, é retirado do transe por seu filho, quando este puxa sua camisa. O jovem pai senta, apóia os cotovelos nos joelhos e chora, um choro que estava guardado há mais de trinta anos.

quinta-feira, maio 17, 2007

Paralisia

Engraçado... estou sentando há mais de três horas em frente ao computador e não fiz nada de útil. Freecell, orkut, msn e músicas. Em suma, perdi três horas da minha vida e digo isso porque em teoria tenho muito o que fazer!
Tenho que preparar quatro provas, corrigir uns trabalhos, preparar umas aulas, estudar, ler uns livros, limpar o meu quarto e banheiro, lavar a louça.... e nada. Estou aqui. E confesso não ter vontade de sair.
Sou assim: quanto mais coisa para fazer, mais parado fico. Na faculdade esse era o meu dilema no fim dos períodos, quando ficávamos atulhados de trabalhos, textos, provas (sem contar o estágio e um eventual emprego). E não podemos esquecer da nossa vida pessoal! Namoro, família, contas e coisas assim. Saco. E eu sentado em frente ao computador, como se ele fosse resolver todos os meus problemas. Não, não vai.
Essa estática me consome. Fico de mau humor, sem paciência e cada vez mais parado. Passo a não gostar de nada e reclamo (me transformo na companhia mais desagradável possível). Dizem que isso é um sinal de depressão, mas acho que não, fiz três anos de terapia, tive alta, e não foi por causa disso (eu acho).
Olho para os lados como quem procura um apoio para levantar.... respiro fundo, tomo coragem e levanto, na tentativa de vencer a enorme vontade de continuar parado.

segunda-feira, maio 07, 2007

Amigos

Tem pessoas que passam pela sua vida e se tornam inesquecíveis, mesmo tendo sido o encontro um mero e honesto "oi". Outras pessoas entram e saem da sua vida e você mal consegue lembrar o nome delas. Ainda existem pessoas que entram e fazem questão de continuar, mesmo quando você vira para elas e diz: "tchau". E para finalizar existem os encontros perfeitos, onde você não quer que a pessoa vá embora e mesmo quando num acesso de fúria você manda elas embora, elas sabem que devem ficar. Estes são seus amigos. E eu sou tudo com eles e nada sem eles... simples assim....

sábado, abril 28, 2007

Capitalizando com o meu vazio

Nunca assisti a um show da Legião Urbana (para os íntimos, apenas Legião), até porque estreitei meus laços com a banda após a morte de Renato Russo. Ainda lembro das minhas tentativas em decorar a letra completa de Faroeste Caboclo, tentativas estas realizadas nas minhas aulas de português no ano de 1997. Saber esta letra de cor era um tipo de atestado: "Sou fã da Legião".
Neste mesmo ano comprei o cd "Mais do mesmo", meu primeiro da banda.... e feliz com minha aquisição (até porque eu comprei com o dinheiro que ganhava como mac-escravo), não parava de ouví-lo. Certa vez, em visita a casa de uma amiga (Ana Catarina, por onde andará você?), me deparei com toda a discografia da Legião e soltei: "- Ana, eu tenho o Mais do mesmo!" E ela, fria como a era glacial, respondeu: "- Coletânea não é coisa de fã. Fã mesmo tem tudo". Assim, acalentei o sonho de um dia completar a coleção.
Enquanto não chegava este dia, me distraía com o meu violão, dedilhando músicas da Legião (a primeira música que aprendi foi "Ainda é cedo"... Am, D, C.....) e obrigando as pessoas a minha volta a me aturarem cantando....
2006. Ganhando meu dinheirinho de forma honesta, me deparo com aquelas pilhas de cds nas Lojas Americanas e no Extra. Tal qual um minerador na busca pela sua redenção, busco os álbuns da Legião e aproveitando das promoções, completo em alguns meses a minha coleção. Um sonho realizado. Passei diversas tardes embalado pela voz de Renato Russo, principalmente quando escutava as gravações ao vivo, sentia a emoção do público, queria ser um deles, me sentia um deles... mas ainda faltava alguma coisa.....
Ainda em 2006 entra em cartaz uma peça de teatro sobre a vida de Renato Russo. No início me mostrei reticente em ir, pois não sou fã de teatro. Críticas e críticas depois, além do convite de amigos, decido ir. Compramos o ingresso com quase um mês de antecedência, pois o teatro era pequeno e as sessões estavam lotadas. Fui.
Um dia inesquecível.... a peça na verdade se transforma num show, com um ator inspirado e uma banda afinada, às vezes superior a original.... canto, bato palmas, me emociono.... quase choro. O show acaba e saio aliviado. Não era o Renato Russo, mas acredito que tenha sido a coisa mais próxima dele....
Outro sonho semi-realizado. Chance como esta só num próximo encontro com o Renato.
Volto no tempo. 2000. Show dos Los Hermanos no extinto BallRoom. Entro em êxtase. A galera canta o show inteiro, todas as músicas. Os caras no palco eram um espetáculo a parte. Um dos músicos, de barba ruiva, chama um casal para dançar no palco. Adorei. Viro fã. Não era a Legião, óbvio, mas o carinho que o público tinha pela banda se aproxima do que os legionários tinham...
Compro todos os cds, dvds, camisa, o diabo. Vou a todos os shows, amo cada um deles. Esta semana recebo a notícia de que a banda vai dar um "tempo". Fico sem palavras.
Perdido, sem referência, percebo que a banda que mais curto, com a qual mais me identifico, está chegando ao fim. E ao terminar a leitura da notícia, vejo a última frase: "A banda fará um último show nos dias 8 e 9 de junho da Fundição Progresso". O primeiro impulso é ir a qualquer custo! É o último show! Tenho que ir! Vou esperar começar a venda de ingressos e montar guarda na porta da Fundição. Tenho que comprar o meu logo!
Ontem meu irmão chegou da rua com a notícia de que eu já poderia comprar o ingresso pelas americanas.com. Cego pela vontade de garantir o meu passaporte para o show, vou atrás do ingresso. Ao me deparar com o preço, desmonto. Meu coração arrefece. Compro o ingresso com a sensação de que estão capitalizando com o vazio que se abriu em meu peito.

quarta-feira, abril 18, 2007

Um grito num mundo de surdos....

Hoje venho fazer uso destas linhas não para contar uma história engraçada, ou uma cena do nosso cotidiano... mas para falar sobre sonhos destruídos e ao mesmo tempo, fazer um desabafo. Hoje peço desculpas a vocês meus amigos, mas não tem jeito, preciso desabafar, gritar, dar um daqueles urros bem selvagens, convocando nosso animal interior.
Há cerca de dez dias não escrevo nada por aqui e isso poderia significar que eu estava empregando o meu tempo com outras coisas, como por exemplo o trabalho. Ou ainda, que estivesse fazendo coisas divertidas, como passeios e idas ao cinema, ou quem sabe, saboreando as vitórias mais recentes do Botafogo, a única coisa neste mundo capaz de me tirar do sério. Mas não, estava repensando a minha vida e olhando com muito desespero o quadro atual das coisas.
Como muitos de vocês sabem escolhi o magistério, a sala de aula como razão do meu viver e até bem pouco tempo atrás estava mais do que certo de que esta tinha sido a escolha mais acertada da minha vida, perdendo somente para o Botafogo. Hoje já começo a repensar isso..... muito triste, mas repenso.
Alguns dos colegas que frequentam este espaço são professores que nem eu, sabem das amarguras e dos prazeres que esta profissão pode nos proporcionar, mas ao mesmo tempo, são conscientes da nossa situação em sala de aula.
Hoje em dia os professores da rede particular são reféns dos alunos e... alunos? Não, desculpe, vamos colocar os pingos nos Is... O que vemos em sala de aula não são alunos, são clientes de uma empresa capitalista com um compromisso bem claro: ganhar dinheiro e se manter no mercado. Se isto for compatível com um bom ensino, melhor. E de acordo com os preceitos de uma empresa, não se deve perder clientes, pelo contrário, devemos conquistá-los! Fidelizá-los! A empresa deve passar a idéia de que ela é a solução de todos os seus problemas e blablabla. Mas será que a escola deve encarar seus alunos como clientes?
Nesta empresa temos os funcionários e alguns deles são os professores. E como qualquer funcionário estes professores são cobraddos no sentido de fazer o seu melhor e acho realmente que os professores devem fazer o melhor sim! Foi com este objetivo em mente que lutei muito para me tornar o que sou hoje: um professor ou até mais do que isso, nos meus sonhos acalentava o desejo de ser O professor.
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Bem, este papo de hoje deveria ser sobre sonhos certo? Então vamos a eles...
Enquanto aluno sonhei em um dia subir o tablado, encher o peito, virar para todos aqueles sentados na minha frente e soltar um gostoso "Bom dia". E após este primeiro contato, sentar à mesa e abrir o diário e começar a fazer a chamada.... e passo a passo, transformar aqueles nomes em rostos, em vidas. Sempre sonhei com isso. Sonhava também em mudar a maneira de dar aulas, rompendo com o modelo clássico, o famoso cuspe e giz. Desejava me aproximar dos alunos, ouvir suas vozes, suas dúvidas, suas paixões, seus sonhos.... sei lá... eu queria tanta coisa.....
Escolhi uma carreira, me empenhei, estudei, passei por diversas provações, terminei o meu curso, fiz tudo o que podia fazer. Realizei parte do meu sonho: tornei-me professor. Faltava a outra parte, a de entrar em sala e neste afã talvez tenha esquecido de que para realizar o meu sonho eu não dependia só de mim....
Dou aulas há cinco anos e este ano uma parte do meu mundo desabou.
Mas ainda acredito que este não é a cena final, e comparo nossas vidas à um quadro pintado a óleo, onde o artista, mesmo depois de ter colocado a tinta na tela, pode alterar toda a cena, transformando borrões em belíssimas imagens, próximas ou não da idéia inicial.... quero, prreciso acreditar nisso.
Amigos, peço desculpas novamente por ter sido tão chato, mas hoje me sinto um homem cujos sonhos foram despedaçados..... e a pessoa que tem seus sonhos tratados desta maneira, morrem um pouquinho a cada dia, tentando gritar num mundo onde todos são surdos, ou fingem ser.

sábado, abril 07, 2007

Pensamento longe.....

Mais uma vez sigo observando as pessoas nas ruas, e posso dizer sem nenhum pudor: Adoro isso. Podem me taxar de fifi ou coisas do gênero mas na verdade sou um amante das relações humanas, ou ainda, do ser humano. O considero fantástico, uma obra prima, a masterpiece de Deus (considerando a sua existência).
Estava num ônibus (este sim, o melhor meio de transporte!) parado em um engarrafamento... a falta do que fazer desviou a minha atenção para um casal sentando na minha frente, naqueles bancos que vem logo abaixo daqueles mais altos. Ela, com os olhos carregados de lágrimas represadas pelo desejo de não demonstrar fraqueza, olha para baixo e sussurra: Me desculpe.
Ele, num misto de surpresa e espanto, talvez por desta vez a culpa não ser dele, responde: Você não fez nada que necessite de um pedido de desculpas. Ele coloca o braço sobre o ombro dela e suavemente toca com os seus lábios sua namorada. Contenda resolvida.
Volto- me aos meus pensamentos.... a vida a dois pode ser muito simples ou muito complicada e acredito que isso dependa basicamente das pessoas envolvidas. Questão de vontade, vontade de ficar junto, resolver as situações da melhor maneira possível. Ceder sempre que for necessário. Engolir vaidades, egoísmos.... sei lá...
Olho para o casal na minha frente e vejo que ela sorri, feliz. Mais um ponto e eles se preparam para sair do ônibus. Pronto.... sejam felizes.
Começa a chover. Estou engarrafado na Praia do Flamengo. O tempo passa ainda mais devagar, o ônibus está praticamente vazio... e as pessoas evitam as ruas, se encolhem em marquises, rezando para que elas não desabem em suas cabeças...
Abro a janela, deixo a chuva bater no meu rosto e respingar em meus óculos.... dez, quinze minutos.... a cidade pára em dia de chuva... retiro os óculos e os enxugo na blusa... ela não absorve, apenas espalha a água... coloco de novo, o mundo ganha novos contornos, olho para a calçada.... viro o rosto em direção ao ponto de ônibus e vejo um ambulante, daqueles que transformam o ônibus no seu ganha pão, cantando e dançando.... paro e penso: o que leva este homem a estar ali? Por que ele está tão feliz?? Ainda mais num dia como estes?!?!?! E num ponto em que nenhum motorista poderá resgatá-lo?? Deixo estas questões povoando minha cabeça e ao mesmo tempo, deixo fugir um sorriso no canto da minha boca....

quinta-feira, março 29, 2007

Por baixo da terra....

Um monte de gente, uns sentados, outros em pé... se você está sozinho, reina o silêncio, acompanhado, conversas fúteis sobre assuntos inúteis, apenas para que as outras pessoas não achem que você seja um deslocado.
Olho para o lado, um lugar vazio... sentar ou não sentar? Se sento, entra uma pessoa que necessita daquele lugar mais do que eu.... se não sento o que acontece? Outro senta. Será que ele cederá o lugar se necessário for? Não cedeu. A grávida viaja em pé.
Olho para o outro lado, vejo-me refletido... como estou abatido, cansado, mais gordo, mais careca... quase desejo não me me reconhecer.... mas ainda sou eu. Querendo ou não.
Minha privacidade invadida por uma voz que anuncia onde estou... e eu lá quero saber disso? As vezes quero me perder, ficar em paz, sozinho! Gosto de pensar livremente, andar livremente mas a maldita voz anuncia onde estou. Saco.
Pessoas espremidas. Odores misturados. Perfume barato com desodorante ainda mais barato. Me cheiro e vejo que também estou assim. Cada vez me espremem mais, sinto que a qualquer hora posso explodir! Jogarei pedaços de mim por todos os lados. Fragmentos de uma personalidade ainda em construção. Sempre.
Saco. Quanto mais desejo que a viagem acabe, mais ela se prolonga. Eita paradoxo. E ainda dizem que é a melhor forma de andar na cidade. Discordo. Prefiro o ônibus. Muito mais vivo, mais pulsante. No ônibus me sinto parte da cidade, aqui, mais uma minhoca comendo terra.

segunda-feira, março 19, 2007

O homem perdido no espaço

Certa vez, numa viagem de metrô (o mais sem graça dos meios de transporte), avistei um cidadão com duas bússulas e .... para tudo! O que leva uma pessoa a usar duas B-Ú-S-S-U-L-A-S??? Daquele instante em diante, nada mais no mundo fez sentido naquela singela viagem, afonso peña-botafogo....
Parei e fiquei olhando para o sujeito, imaginando o que teria levado aquele cara a usar duas bussúlas..... e cá entre nós, sobre bússulas eu apenas sei que elas apontam o norte. Partindo disso, perguntei ao meu eu interior: - Será que o homem hoje está tão perdido que precisa de duas bússulas para se orientar? Que diabos teria levado o homem e ficar tão perdido? E mais! Será que as bússulas permitirão que este homem encontre o caminho certo? Sei não...
Bem, este cidadão entrou no vagão na estação da carioca, famosa por se encontrar no centro nevrálgico da cidade, onde tudo, ou quase tudo, acontece (ou pode acontecer). Será que ele é um advogado e precisa das bússulas para se localizar e se locomover dentro dos fóruns da vida? Ou ainda, será ele um office boy perdido entre tantas idas e vindas? Ou até um turista enganado, que adquiriu aquele instrumento como sendo um amuleto indígena contra ladrões e problemas em geral....( e olha que ele comprou dois!!).
A todo momento nos deparamos com decisões a tomar, rumos que com certeza nos influenciarão pelo resto de nossa existência... somos obrigados a tomar decisões o tempo todo, seja sobre nossas vidas, a vida dos outros... bem, e cada vez mais cedo temos que decidir sobre isso, o que faremos amanhã e ..... bem, acho que uma bússula não poderá nos ajudar nisso.
E continuo olhando o sujeito, em pé na minha frente, se apoiando naquelas barras presas ao teto e sigo pensando, quando sou interrompido: - Estação Botafogo, Botafogo Station, estação de integração para a Urca. Desembarque pelo lado direito. Bem o cara saiu na mesma estação que eu, para onde ele vai? Olha ele ali e.... e.... bem, perdi ele de vista!! Que falta me faz uma bússula!

quinta-feira, março 15, 2007

Nossa, quanto tempo.......

Confesso que estava com saudades de escrever. De escrever qualquer coisa, sei lá! Outro dia, num bate papo com um amigo, eu comentei que escrevia. Escrevia.... será que usei o tempo certo? Não escrevo mais? Ou será que este “escrevia” me dá espaço para seguir escrevendo? Tomara que sim, pois escrever é uma cachaça....
Na minha ânsia de querer voltar a escrever, fiquei sem assunto. Será a falta de prática? Não sei não... sinto que escrever é que nem andar de bicicleta: não se esquece nunca. Hum, acho que vou ficar devendo um assunto melhor do que escrever sobre o não escrever.... Fica para a próxima então.... tanto a dizer e nada a escrever... acho que na verdade eu estava era com saudades de ficar sozinho....

quinta-feira, março 08, 2007

O amor está banalizado!

Sinal dos tempos! O sentimento mais sublime está banalizado no início do século XXI. Logo ele.... o AMOR..... cantado em verso em prosa, descrito como “...o fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, descontentamento descontente, dor que desatina sem doer....”
Lembro do meu primeiro “Te amo”. Já se passaram mais de dez anos, mas me lembro como se fosse ontem.... e foi um “te amo” tão sincero.... Lembro que meu corpo todo tremia, as palavras quase não saíram da boca! Não sabia qual seria a reação dela, se ela correr, rir de mim ou dizer que me amava também. Quando eu disse “Te amo” eu já namorava há mais de três meses e não era um casinho qualquer. Fui aquele adolescente que achava que a primeira namorada seria a última! Fui assim, fazer o que.
Hoje eu lido com adolescentes durante uma boa parte do meu dia. Converso sobre suas inseguranças, confusões, medos, amores... AMORES? Outro dia estava na o MSN (sim, eu uso o MSN) e vi o nick de um aluno: “Fulana, ti amuullll!”. Me assustei! E não foi por conta dos erros de português! Esse cara estava falando que amava uma outra aluna que ele conheceu pela Internet e que ficou com ela uma só vez! Era amor o que ele realmente estava sentindo? Se bem que não estou habilitado a dizer, ou julgar o que é o amor ou não.
Renato Russo já apontava esta situação em 1994. No meio de um show (que foi registrado no cd Quatro Estações ao Vivo) ele pergunta ao público: “Como é que se diz eu te amo?” e depois emenda: “Quem aqui já ouviu isso?” E diante de uma montanha de “EUs!”, ele completa: “Quem ouviu de VERDADE”.
Hoje, as relações estão tão esvaziadas que não assusta ninguém um “Eu te amo” logo no segundo encontro. Parece normal. Este aluno, com apenas 18 anos, já terá dito quantas vezes a frase “Te amo”? Será que alguma vez foi sincera, de verdade? As vezes sim, as vezes não.
Não estou questionando a capacidade de amar de ninguém, muito menos o que seria o amor. Nada disso. Apenas quis aliviar o meu peito escrevendo o quanto fiquei surpreso com a maneira que os adolescentes estão encarando o amor. Eu ainda acredito no peso da palavra e do sentimento. Seria incapaz de sair por aí falando eu te amo para qualquer pessoa. Devo estar por fora.

domingo, março 04, 2007

As Fms

Muito já foi escrito sobre a função social do rádio, como instrumento integrador ou ainda de difusão de uma idéia, ideologia. O que poucos fizeram foi escrever sobre o papel do rádio na vida de uma pessoa apaixonada, esteja ela realizada ou não... e para ler as próximas linhas é necessário que o leitor já tenha passado por uma dor de cotovelo..... caso contrário abandone estas porcas linhas e vá para a varanda olhar para o céu....
Terminar um romance ou vivê-lo de maneira utópica (e utopia para mim éalgo que AINDA não aconteceu) nos enche de dúvidas sobre o proceder e este é o terreno fértil das fms.... que desfilam um manual de como se comportar num namoro ou o que fazer se ele (a) te abandonou. As músicas da rádio se transformam em fonte inspiradora para as ações do apaixonado. Quantas vezes ouvimos uma música e decidimos nos declarar, ou ainda, abandonar tudo e correr de braços abertos rumo ao desconhecido? Pena que este ímpeto termine junto com a música. Outra coisa muito comum é reconhecermos na música situações que aconteceram com a gente, traições, abandonos, esgotamento do sentimento... parece que o puto do cantor está te dando um esporro, do tipo: - Por que diabos você agiu assim?? Hein? Tá maluco!
As Fms massacram o coração do apaixonado, ainda mais se ele não está junto ao ser amado. Poderia neste final (esta foi curtinha né?) citar várias músicas ou trechos para ilustrar tudo isso, pois a mpb é repletade exemplos de amores realizados e mais ainda de amores perdidos, mas volto ao ponto das decisões apaixonadas, e sempre pensamos se fizemos ocerto ou não... quanto a isto, recorro finalmente a uma música na voz de Amarante... “O tempo vai dizer lento o que virá, e se chover demais?”.